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A Tosse

Em Janeiro pude observar de perto A Doença.

Como todos os dias de todo os meses eu fiz a minha vida de Metro. No Metro estou perto dos Joões e dos Antónios, das Auroras, Marias e Jorges, dos Silvas e Lemos. Foi no meio de toda a gente que apareceu a doença.

A Tosse.

A Tosse não veio anunciada junto com as outras doenças de inverno. Não se ouviu um único Atchim entre o alerta das paragens. Não houve espirros e o ar não cheirava a pêlos do nariz húmidos e a gripe. Mas de repetente lá estava, entrou por algum lado, por todos os lados, a tosse velhaca e dominadora. Uma tosse escura e permanente. As portas abrem. Tosse. Portas fecham. Tosse.

Esta tosse parece ter a capacidade de nos arrastar para um tempo medieval onde era banal ser miserável.

Talvez por isso, quando começaram a tossir as pessoas não pediram desculpa por tossir. E também não se afastaram. E eu não vi uma só pessoa usar um punho ou um cotovelo para amparar esta tosse. Ninguém pareceu importar-se. A indiferença pegou como a tosse. Não vale a pena. Ninguém sequer levantou os olhos para os homens e mulheres que tossiam. Esta tosse assusta quem a vê, e é feia que dói.

As pessoas não parecem sequer reparar que também estão a tossir.

Nas minhas viagens pela cidade cinzenta a tosse passou a sacudir várias cabeças e costas como um freio. Durante todo o mês, o Metro do Porto fez as suas piruetas tristes de sempre, mergulhando lentamente na ondulação da Casa da Música e da Trindade, e emergindo no resto do trajeto. E nós os passageiros não viemos mais à tona, suspensos no ar tossido das carruagens.

Esta tosse é mais cruel que o ar de inverno, porque manda nas pessoas. Os que estão de pé param, pousam as malas e mochilas para tossir, tossem, e repõe as coisas nas costas. Outros param as conversas, tossem, e retomam. A tosse abre de forma avulsa, depois engrossa, e só então abre a tosse a sério, séria como socos. Quem tem a doença têm os olhos escuros e com frio.

Durante várias semanas vi a tosse ignorar todos os agasalhos do Metro. Casacos, samarras, gorros e cachecóis, tão impotentes como calor do sol da manhã. Tossiram velhos, novos, imigrantes e os que vieram do aeroporto. Ouvi pessoas a tossirem dentro e fora das carruagens.

Esta tosse é seca e não é repugnante. Faz lembrar uma doença forte, ou uma cicatriz.

O mundo ultrapassou a pandemia mas ficámos permanentemente estragados. Foi muito rápido. A doença, o confinamento, as mortes, o trabalho em casa, o pânico. As soluções estúpidas com demasiadas as certezas, as vontades e as mentiras, o compromisso absurdo, como o trabalho híbrido. Mudaram as rotinas, que mudaram as cidades, que mudaram as pessoas. Foi muita coisa.

As doenças agora são diferentes. Este janeiro foi pós-apocalíptico, desfigurado pela Tosse. Mas já ninguém quer saber.

Parecemos zombies. A população perdeu parte da felicidade. A conversa, a vida, o homem que pede esmola, o empurrão do senhor que quer entrar no metro, a música nos headphones, o anúncio das estações, a guerra, as guerras, tudo é ruído branco.

A tosse é o único som que se destaca, o metrónomo de uma sociedade avariada.

Felizmente acabou Janeiro.


Nota: A Tosse foi inspirada neste post no X, de alguém que não sei se é anti-vacinas ou COVID-doomer, mas que me transportou logo para este post. Fiquei a semana toda a sonhar com escrever isto.